Essa semana, uma amiga comentou comigo sobre um TEDx chamado The ten-item  wardrobe. Apresentado por Jennifer Scott, autora do best-seller Lessons From Madame Chic (Madame Charme, na tradução para português), o vídeo traz o relato de uma transformação de estilo de vida (e do modo como encará-la/vivê-la) por meio de… peças de roupa (ou, melhor dizendo, a ‘falta’ delas)!

“Fazemos parte de uma sociedade que está acostumada a ter um armário completamente cheio de roupas”, diz ela. Aqui entra, novamente, a questão que trouxe no último post: nosso comportamento no que se refere ao consumo está intrinsecamente ligado ao contexto social e psicológico no qual estamos inseridos.

Jennifer fala que não importa se temos uma peça ou mil, sempre teremos a impressão de que não há nada para vestir. E, então, ela apresenta a teoria do guarda-roupa de 10 peças.

O primeiro contato que teve com esse formato tão (aparentemente) restrito foi em Paris. Ao chegar na casa da família que a acolheria pelos 6 meses de intercâmbio, foi levada até um armário para que pudesse organizar suas roupas. Ao abrir, surpresa! Havia apenas 10 cabides.

A apresentadora levanta um ponto que achei interessantíssimo: em filmes norte-americanos, personagens femininas só repetem roupas quando o diretor quer passar a imagem de figuras relaxadas, deprimidas ou com algum tipo de problema.

E isso (a associação do menos ao negativo) é tão frequente que nós nem nos damos conta, porque passou a ser normal! Seguimos a máxima de que menos é menos e, portanto, quanto menos TEMOS, menos SOMOS. Acho assustador pensar no nível em que conectamos um verbo ao outro quando, na verdade, eles deveriam ser totalmente independente: o que possuo de bens materiais em nada diz respeito a pessoa que sou.

Acredito que podemos tirar algumas reflexões disso:

* A primeira questão (abordada no post anterior) é a ligada à sustentabilidade da coisa. Por quanto tempo conseguiremos manter nossos hábitos de consumo sem que haja uma ‘resposta’ do planeta.

* Quanto mais temos, mais queremos ter. Porque a sensação da conquista é boa, traz um orgulhinho próprio e, por conta disso, queremos tê-la de novo e de novo.

* Por que o eterno confronto entre qualidade x quantidade ainda encontra lugar na moda? Em se tratando de algo que reflete quem somos (e partindo do pressuposto de que todas queremos um reflexo positivo), não parece óbvio que a qualidade é a eterna candidata a primeira colocada?

Óbvio que essa é uma conclusão generalista, mas, em última instância, por que Marie Kondo fez tanto sucesso com A Mágica da Arrumação? Ao meu ver, porque trouxe um respiro, uma pausa ao dizer: ei, menos. Você não precisa disso tudo para ser feliz.

É como se uma aprovação alheia nos desse a licença necessária para olhar para o que temos e ver o que, daquilo tudo, realmente nos é proveitoso. Quando percebemos que o excesso não é benéfico, damos outro valor ao equilíbrio. O que antes parecia um ambiente morno, uma situação típicas daquelas em-cima-do-muro, agora torna-se uma meta a ser atingida. Logicamente, isso tudo leva tempo (e pressa pra tudo também é sinal de desequilíbrio).

Começar uma triagem pelo guarda-roupa pode ser uma boa alternativa. Como qualquer outra limpeza/mudança em universos pessoais, o resultado será totalmente particular também. E é justamente aí que está o melhor de tudo: no fim das contas, esse é mais um passo da eterna busca por nós mesmos – por caminhos totalmente diferentes uns dos outros.

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